Alice Quaresma (Port.)

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Alice Quaresma toma como ponto de partida sua diáspora, tendo experimentado o mundo da arte através de sua educação em Londres e Nova York, para retornar às suas raízes como artista brasileira. Quaresma entrou em contato com a arte durante seus estudos na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, no Rio de Janeiro. Suas primeiras pinturas garantiram sua entrada no Colégio Central de Arte e Design de São Martins em Londres, onde terminou seu bacharelado em Belas Artes, em 2007. Em 2009, Alice mudou-se para Nova York e obteve seu mestrado através do Pratt Institute. Embora continuasse a trabalhar em pintura durante esses anos, foi através de sua prática com a fotografia que ela se tornou reconhecida no campo da arte: em 2014, ela foi selecionada pela Foam Magazine (Amsterdã, Holanda) como um dos talentos do ano em fotografia.

Após um curso de verão na Escola de Artes Visuais (2012) e uma oficina no Rio de Janeiro no Barracão Maravilha (2013), Alice começou fotografar a cidade carioca, revisitando as paisagens de sua infância, criando narrativas incompletas. Mas, de repente, resolveu criar interferências manuais nessas fotografias. Às vezes, essas intervenções são delicadas: adesivos coloridos, formas e linhas geométricas finas ou quase imperceptíveis. Outras vezes, essas interferências tornam-se incisões ou rabiscos pseudo-agressivos, formas imprecisas coloridas ou pretas, desenhadas com pastel a óleo. Esses trabalhos de técnica mista escapam do olhar rígido da fotografia, evitando também o aspecto autorreferencial da pintura. Assim, Alice oferece uma abordagem ambígua, que desafia as regras tradicionais associadas a essas técnicas.

Essa certa recusa em subscrever-se à uma única técnica pode ser entendida como a construção de um diálogo lúdico com um dos momentos mais críticos da história da arte brasileira do século XX: a arte neo-concreta. Alice cita sua admiração pela leitura da correspondência entre Lygia Clark e Hélio Oiticica. Mas, em suas obras, a artista também brinca com esse legado, debochando respeitosamente das buscas formais do início do concretismo no Brasil. Nas obras de Alice, linhas, geometrias e até temas como os famosos Bichos de Clark, tornam-se trocadilhos geométricos que, como bichos, avançam sobre fotografias de animais nas savanas africanas. De certa forma, a artista faz um comentário ao olhar do mercado internacional sobre a história da arte brasileira. Um olhar que continua a ver, e a desejar ardentemente, o neoconcretismo brasileiro, devido ao modo sui generis como este movimento se enraizou na arte moderna europeia.

Por Tatiane Santa Rosa

Visite o site da artista: http://www.alicequaresma.com/